Ernesto Kenji Igarashi apresenta que um dos pontos de maior vulnerabilidade na gestão de equipes operacionais no Brasil está exatamente no momento em que muitas organizações acreditam estar mais protegidas: o processo de avaliação psicológica dos profissionais que portarão arma e responderão por vidas em situações de risco direto.
Em um setor que exige reações sob alta pressão, discernimento em frações de segundo e resiliência emocional consistente, a qualidade do protocolo avaliativo que precede a habilitação de um agente pode ser tão determinante quanto o próprio treinamento técnico que ele receberá ao longo da carreira.
Siga a leitura e veja como funciona o cenário normativo brasileiro, que estabelece a avaliação psicológica como etapa obrigatória tanto para a concessão do Certificado de Registro e do porte de arma, quanto para as reavaliações periódicas de profissionais da segurança pública e privada.
Onde começam as divergências entre a legislação e os protocolos estabelecidos?
A estrutura normativa que regulamenta a avaliação psicológica de profissionais de segurança no Brasil é composta por resoluções do Conselho Federal de Psicologia, pelas exigências do Estatuto do Desarmamento e pela regulamentação específica de cada categoria profissional envolvida.
Ernesto Kenji Igarashi explica que o CFP estabelece diretrizes sobre os instrumentos que podem ser utilizados, o número mínimo de sessões avaliativas e os parâmetros de validade dos testes aplicados. Em teoria, trata-se de um arcabouço sólido. Na prática, a aplicação dessas normas varia de forma expressiva entre os serviços de avaliação disponíveis no mercado, criando uma assimetria de qualidade que raramente aparece nos relatórios gerenciais das organizações contratantes.
Quais são os benefícios tangíveis de investir em saúde mental no local de trabalho?
A transformação mais significativa na abordagem da avaliação psicológica de agentes de segurança nos últimos anos veio da mudança de paradigma, que passou a tratar a saúde mental não como um limiar binário de habilitação (apto ou inapto para arma), mas como uma variável estratégica que precisa ser monitorada, desenvolvida e gerenciada ao longo de toda a carreira do profissional.

Essa perspectiva está alinhada ao que as principais organizações de segurança internacionais adotaram a partir de pesquisas sobre as consequências psicológicas da exposição contínua a incidentes críticos, ao isolamento operacional e à responsabilidade por vidas em contextos de alto risco. Ernesto Kenji Igarashi evidencia que os programas de capacitação e gestão de equipes de maior eficácia reconhecem a avaliação psicológica inicial como o ponto de entrada de um processo contínuo, e não como uma etapa concluída no ato de emissão do laudo.
Por que a reavaliação periódica pode criar um falso senso de segurança nas organizações?
Se a avaliação inicial já apresenta lacunas nos modelos menos robustos, a reavaliação psicológica periódica enfrenta desafios ainda mais complexos. O profissional reavaliado já conhece os instrumentos, sabe o que é esperado e, em muitos casos, aprendeu a responder de forma estratégica aos testes ao longo de processos anteriores.
Ernesto Kenji Igarashi destaca que esse fenômeno, documentado na literatura especializada como desejabilidade social, reduz significativamente a validade diagnóstica das reavaliações quando conduzidas com os mesmos instrumentos e o mesmo formato da avaliação inicial, gerando um falso senso de segurança nas organizações contratantes e nos próprios gestores responsáveis pela equipe.
O laudo não encerra o ciclo, apenas o inaugura
A compreensão contemporânea da avaliação psicológica na segurança institucional aponta para uma revisão profunda de como organizações públicas e privadas encaram esse processo. O documento de apto para arma, quando tratado como ponto de chegada, representa uma proteção jurídica para a organização, mas não garante, por si só, a integridade psicológica da equipe ao longo do tempo.
Ernesto Kenji Igarashi resume que as transformações em curso no setor, que incluem a integração de dados comportamentais em plataformas de gestão de pessoas, o uso de indicadores de bem-estar psicológico e a incorporação de protocolos de saúde mental ao planejamento operacional, indicam que o futuro da avaliação nesse campo é substantivamente diferente do presente.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

