O que as enchentes produzem na saúde física e mental do idoso e por que essa população é a mais vulnerável?

Diego Velázquez
Por Diego Velázquez 14 Views
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Yuri Silva Portela

Conforme alerta o Doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, entre as populações mais vulneráveis aos impactos crescentes das mudanças climáticas, o idoso ocupa uma posição de risco desproporcional que raramente aparece nos planos de resposta a desastres elaborados pelo poder público. Enchentes, que se tornaram eventos cada vez mais frequentes e intensos em diversas regiões brasileiras, produzem sobre o organismo envelhecido uma cascata de danos físicos, psicológicos e sociais que se somam às vulnerabilidades preexistentes e frequentemente precipitam declínios clínicos irreversíveis. 

Neste artigo, você vai entender por que proteger o idoso em situações de enchente é uma prioridade de saúde pública que não pode mais ser adiada.

Por que o idoso é mais vulnerável durante enchentes?

O corpo envelhecido responde de forma menos eficiente a situações de estresse físico agudo. Afinal, a termorregulação comprometida torna o idoso mais vulnerável à hipotermia durante a exposição à água fria e ao calor extremo nos períodos de reabilitação pós-enchente. Já a mobilidade reduzida dificulta a evacuação rápida, aumenta o risco de quedas em terrenos irregulares e alagados e retarda o acesso a locais seguros quando os alertas são emitidos com pouca antecedência. A fragilidade vascular e a menor reserva cardiovascular amplificam, por sua vez, os riscos associados ao esforço físico intenso e ao estresse agudo do desastre.

Como detalha Yuri Silva Portela, idosos com doenças crônicas enfrentam um risco adicional específico durante enchentes: a interrupção do acesso a medicamentos de uso contínuo. Afinal, o idoso que perde seus medicamentos para hipertensão, diabetes ou epilepsia durante um desastre e não consegue reposição imediata está exposto a descompensações graves que podem precipitar eventos cardíacos, crises convulsivas ou comas hiperglicêmicos em um contexto em que os serviços de saúde já estão sobrecarregados pela demanda do desastre.

Saúde mental e o impacto psicológico das perdas materiais e simbólicas

Para o idoso, uma enchente frequentemente não representa apenas a perda de bens materiais: representa a destruição de um espaço carregado de memória afetiva construída ao longo de décadas. Fotografias, objetos pessoais, móveis que pertenceram a familiares já falecidos, o jardim cultivado por anos, tudo isso que foi submerso ou destruído pela água representa uma forma de luto que a medicina raramente reconhece como tal, mas que produz sofrimento psicológico real com consequências clínicas mensuráveis.

Yuri Silva Portela
Yuri Silva Portela

Na avaliação de Yuri Silva Portela, o transtorno de estresse pós-traumático é significativamente mais prevalente em idosos sobreviventes de enchentes do que em adultos jovens expostos ao mesmo evento, com apresentações que incluem insônia persistente, hipervigilância, evitação de situações associadas ao desastre e revivência intrusiva dos momentos mais aterrorizantes da enchente. Esses sintomas, quando não identificados e tratados precocemente, tendem a se cronificar e a comprometer de forma duradoura a qualidade de vida e a saúde física do idoso afetado.

Deslocamento forçado e ruptura das redes de suporte

Quando uma enchente força o idoso a deixar sua residência e se deslocar para abrigos temporários ou para a casa de familiares, rompe-se de forma abrupta a rede de suporte cotidiana que sustentava sua saúde e sua autonomia. Na prática, vizinhos que monitoravam sua saúde informalmente, farmácias e unidades de saúde do bairro, rotinas estabelecidas que estruturavam o dia, tudo isso desaparece simultaneamente, deixando o idoso em um ambiente desconhecido, com menor suporte e maior demanda de adaptação justamente no momento em que seu organismo está mais vulnerável.

Conforme ressalta Yuri Silva Portela, abrigos temporários pós-enchentes raramente são projetados para atender às necessidades específicas do idoso frágil. Banheiros sem barras de apoio, colchões no chão, ruído constante, ausência de medicamentos e dificuldade de acesso a alimentos adequados são condições que transformam o refúgio temporário em fator adicional de risco para quedas, desnutrição, desidratação e declínio funcional acelerado.

O que os planos de resposta a desastres precisam incluir para proteger o idoso?

Incorporar o idoso como grupo prioritário nos planos de resposta a desastres climáticos exige medidas específicas: cadastramento prévio de idosos em situação de vulnerabilidade nas áreas de risco, protocolos de evacuação adaptados à mobilidade reduzida, estoques emergenciais de medicamentos de uso contínuo nos pontos de apoio, abrigos com infraestrutura adaptada e equipes de saúde treinadas para identificar e manejar as condições geriátricas mais prevalentes em situações de desastre.

Sob o entendimento de Yuri Silva Portela, preparar o sistema de saúde e as comunidades para proteger o idoso durante enchentes não é apenas uma questão de gestão de desastres: é uma questão de justiça. Quem passou a vida construindo um território merece que esse território cuide dele quando tudo vai abaixo.

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